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Escrever é uma salvação.
Escrever é procurar entender.
Escrever é abençoar uma vida que não
foi abençoada."
Clarice Lispector
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O Jornal Recomeço iniciou em junho de 2001 para circular
na cadeia de Leopoldina, MG e órgãos afins.
A primeira idéia era passar esperança aos detentos.
Como diz o título do jornal, de que é possível
recomeçar, apesar de toda a marca e desesperança
que ficam da prisão.
O segundo objetivo seria resgatar o potencial que todo ser
humano tem de se humanizar em contato com a beleza através
de textos literários e auto-ajuda.
E o mais importante de todos: levá-los a resgatar a
auto-estima, através da escrita. E valemo-nos do texto
da Clarice Lispector, no qual ela diz: " Escrever é
uma salvação. Escrever é procurar entender.
Escrever é abençoar uma vida que não
foi abençoada."
Na época, ficamos sabendo que, em nossa cidade, havia
cerca de 80 presos em 6 celas (Há uma cela 1, mas só
para mulheres, com cinco presas). A cadeia não contava
com nenhuma atividade e o banho de sol só duas vezes
por semana, única hora em que os presos saem das celas.
E um dado preocupante: a maioria tem menos de 30 anos e muitos
foram presos antes dos 21 anos de idade.
Os crimes? Em sua maioria furtos, agressões por brigas,
usuários de drogas, por aí. Escolaridade? Apenas
um entre os 80, havia completado o ensino fundamental e o
médio. Estamos fazendo um cadastro dos presos, no qual
vamos analisar a relaçaõ escola-criminalidade,
ou seja o quanto a escola é omissa e incompetente com
nossas classes populares. Se esses presos iniciaram o seu
processo de aprendizagem e todos um dia se matricularam numa
escola pública, está na hora de começar
a perguntar: Por que se evadiram? Por que a maioria não
passou nem da 2ª série do ensino fundamental?
Quais as causas dentro da instituição-escola
que ajudaram a romper o tênue fio que segura as nossas
crianças e adolescentes pobres na escola?
INÍCIO
NA CADEIA
Em
Leopoldina, já funcionava há bastante tempo,
a Pastoral Carcerária da Igreja Católica.
Todo sábado, um grupo de pessoas da Pastoral vai
à cadeia visitar e realizar um culto religioso com
os presos. Nós pedimos a este grupo se, após
o culto, poderia entregar um jornal feito para os presos
e que não teria nenhuma conotação religiosa.
Seria uma experiência e se eles se interessassem,
o objetivo seria fazê-los escritores do jornal. Elas
gostaram da idéia e levaram o primeiro número
no qual colocamos a primeira mensagem de esperança
e uma linda poesia da Cora Coralina feita para "um
presidiário".
Nesse primeiro múmero constou um editorial, no qual
comunicamos aos presos que o jornal era "deles",
que enviassem artigos escrevendo sobre o tema que quisessem,
inclusive histórias de suas vidas.
A partir daí, choveram artigos de vários presos.
Foi despertada a alegria de ler e escrever.
De início, pensávamos fazer um jornal mensal.
Com o êxito e o entusiasmo despertados, resolvemos
fazer quinzenal, mas a pena de saber que todos os sábados,
eles esperavam pelo jornal, nos fez transformá-lo
em semanal.
O jornal é distribuído, além da cadeia
de Leopoldina, no Fórum da cidade, nas igrejas, algumas
instituições como a APAE e para pessoas interessadas.
Alguns presos também enviam para suas famílias,
muitas em outras cidades.
Gostaríamos de dividir com todos esta experiência
que poderia acontecer em outros lugares. Estamos convictos
de que ela pode salvar vidas e atenuar o caos do nosso sistema
carcerário.
O mais importante é ACREDITAR que todos podem ter
o seu RECOMEÇO.
Dos
editores do Jornal Recomeço
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